Na manhã desta quinta-feira (20 de março de 2025), uma ação coordenada da Polícia Civil de Mato Grosso, por meio da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) e da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), resultou na deflagração da Operação Falso Profeta. A ofensiva policial teve como meta principal desmantelar uma intrincada rede de extorsão e lavagem de dinheiro, orquestrada por uma facção criminosa que impunha seu domínio sobre estabelecimentos comerciais dedicados à distribuição de água mineral nas cidades de Cuiabá e Várzea Grande.
O epicentro da investigação aponta para um líder da facção, identificado como o idealizador do esquema criminoso. Trata-se de um pastor de uma igreja situada no bairro Pedra 90, em Cuiabá, que, no momento da operação, encontrava-se foragido no estado do Rio de Janeiro.
A operação mobilizou um contingente significativo de policiais para o cumprimento de 30 ordens judiciais. Foram expedidos sete mandados de prisão preventiva, nove mandados de busca e apreensão, além de duas determinações de proibição de exercício de atividade econômica para empresas supostamente ligadas ao esquema. A Justiça também determinou o sequestro de cinco veículos e o bloqueio de sete contas bancárias, cujo montante total pode alcançar a cifra de R$ 1,5 milhão.
As ordens judiciais foram emitidas pelo Núcleo de Inquéritos Policiais (Nipo) da Capital e cumpridas simultaneamente em Cuiabá, Várzea Grande e no estado do Rio de Janeiro. Esta operação representa uma etapa crucial no planejamento estratégico da Polícia Civil para o enfrentamento de facções criminosas, integrando a Operação Inter Partes, que faz parte do programa Tolerância Zero, uma iniciativa do Governo do Estado.
Projeto 'Água': A Engrenagem da Extorsão e Intimidação no Comércio
As investigações, conduzidas com rigor pela GCCO e pela Draco, tiveram seu ponto de partida em novembro de 2024. O trabalho investigativo minucioso revelou a atuação de membros de uma facção criminosa que arquitetaram e executavam um esquema de extorsão direcionado a comerciantes do setor de distribuição de água, batizado internamente como "Projeto Água 20 LT".
Através desse plano criminoso, os proprietários de estabelecimentos comerciais eram sistematicamente ameaçados e coagidos a adquirir galões de água exclusivamente fornecidos pelo grupo criminoso. Além dessa imposição, os comerciantes eram obrigados a pagar uma taxa adicional de R$ 1 por cada galão de água vendido em seus estabelecimentos.
Para operacionalizar o esquema de abordagem e intimidação das vítimas, os integrantes da facção agiam de forma organizada e com clara divisão de tarefas. Eles chegaram a criar um grupo em uma plataforma de mensagens instantâneas, com o objetivo de exercer controle explícito sobre os distribuidores. Essa estratégia permitiu que a facção vitimasse comerciantes em diversos bairros tanto de Cuiabá quanto de Várzea Grande.
A tática utilizada pelos criminosos era particularmente ardilosa. As conversas iniciavam-se com um tom aparentemente informal e amigável, mas rapidamente evoluíam para o constrangimento e a ameaça caso as ordens do grupo não fossem prontamente atendidas. A prática do crime de extorsão majorada era velada, mas evidente, com a ameaça implícita de uma "conversa pessoal" para aqueles que tentassem se desligar do grupo de mensagens, demonstrando a intenção clara de coagir e intimidar as vítimas a permanecerem sob o jugo da organização criminosa.
Divisão de Funções e Tentáculos da Organização Criminosa
No decorrer das investigações, foi possível identificar com precisão a estrutura e a divisão de tarefas dentro do esquema criminoso. O administrador do grupo de mensagens, por exemplo, era um dos líderes da facção, responsável por gerenciar as finanças e a logística da operação de extorsão, coordenando as ações de intimidação do grupo.
Outros membros da facção foram identificados como responsáveis por realizar visitas presenciais às distribuidoras. O objetivo dessas visitas era reforçar a obrigatoriedade de os comerciantes adquirirem os produtos fornecidos pela facção, além de efetuarem a cobrança da "taxa" imposta sobre cada galão vendido.
A análise do histórico criminal dos indivíduos identificados revelou que todos possuíam um extenso prontuário policial, com passagens por crimes graves como tráfico de drogas, homicídios, roubo, uso de documento falso e participação em organização criminosa. Esses antecedentes reforçam a periculosidade do grupo e seus laços com a facção criminosa. Na estrutura da organização, eles atuavam como "soldados do crime", utilizando ameaças e violência para garantir que os comerciantes cumprissem as ordens de seus "superiores".
A facção criminosa também dispunha de um caminhão dedicado exclusivamente à distribuição de seus galões de água. O veículo era mantido em uma distribuidora pertencente a um dos integrantes do grupo, cuja identidade foi descoberta durante as investigações.
Tentativas de Ocultação de Bens e a Rota do Dinheiro Ilícito
Em um esforço para rastrear o fluxo de recursos financeiros obtidos através da extorsão dos comerciantes, a polícia realizou levantamentos complementares à investigação principal. O objetivo era identificar possíveis membros da organização criminosa envolvidos na lavagem do dinheiro ilícito.
Essas diligências revelaram a existência de pessoas físicas e jurídicas que atuavam em conluio com o esquema criminoso. Foram detectadas transações financeiras de grande volume, sem qualquer comprovação de origem lícita, o que levantou fortes suspeitas de lavagem de dinheiro.
As investigações apontaram para o estado do Rio de Janeiro como o berço da facção criminosa, sendo o mentor da criação do "projeto da água" justamente o líder do grupo criminoso ali radicado.
Os vínculos identificados conduziram a uma pessoa jurídica que também atuava no ramo da distribuição de água e bebidas. Essa empresa funcionava como um "testa de ferro" da facção, utilizada para dissimular as transações financeiras ilícitas. O objetivo final era remeter os recursos financeiros obtidos com a extorsão para a organização criminosa no estado do Rio de Janeiro, na tentativa de ocultar a origem e o destino do dinheiro.
A Escolha do Nome: Uma Alusão ao Líder Foragido
O nome da operação, "Falso Profeta", faz uma referência direta ao principal alvo das investigações e mentor do esquema de extorsão: o pastor de igreja na Capital, que se encontra foragido.
Canal de Denúncias: Uma Ferramenta no Combate à Extorsão
O Governo de Mato Grosso implementou o serviço "Disque Extorsão contra Facções Criminosas", disponibilizando o número telefônico 181 e um canal virtual (acessível através de um link). Esta iniciativa integra o programa Tolerância Zero e oferece um canal exclusivo para denúncias relacionadas a este tipo de crime, garantindo o anonimato e o sigilo das informações prestadas pela população.